A DIREITA INTERNACIONAL CONTRA NOBEL DA PAZ PARA LULA

A DIREITA INTERNACIONAL SE MOVIMENTA CONTRA PRÊMIO NOBEL DA PAZ PARA LULA

Por Angela Carrato*

O que têm a ver os bancos espanhóis Santander e Caixabank, a empresa também espanhola Telefónica e o fundo israelense Adar Capital?

À primeira vista nada, exceto o fato de serem gigantes e terem ações negociadas em bolsas de várias partes do mundo. Na prática, têm o fato de estar por trás de uma campanha contra a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como prêmio Nobel da Paz.

São eles que controlam a maior parte do capital do grupo de mídia espanhol Prisa, presente em 20 países, responsável pela publicação do diário El Pais, o maior da Espanha e um dos mais lidos pelas populações de línguas espanhola e portuguesa.

Desde o final de 2013, foi lançada uma versão digital do El País para o Brasil.

Foi exatamente o veterano correspondente e colunista do El Pais, Juan Arias, que vive no Rio de Janeiro desde 1999, quem no último dia 31/01, sugeriu, em artigo assinado, que o Prêmio Nobel da Paz 2019 fosse concedido aos “bombeiros de Brumadinho que conquistaram simpatia e admiração dentro e fora do país com seu exemplo de abnegação”.

Que os bombeiros que atuaram no resgate dos 110 corpos (até o momento) e continuam na busca pelos mais de 300 desaparecidos merecem toda a admiração e respeito, não resta a menor dúvida.

Mas qual a lógica desse experiente profissional fazer tal sugestão, num momento em que o Brasil é uma democracia tutelada e tem no ex-presidente Lula um preso político, a quem foi negado até mesmo o direito de velar e enterrar o irmão mais velho? Lula tem o respeito, admiração e apoio de milhares de pessoas no Brasil e no mundo.

Para se entender o jogo que pode estar por trás deste artigo, o melhor caminho, como ensinam os romances policiais, é seguir o dinheiro. Então, vamos lá.

A composição acionária do grupo Pisa no momento é a seguinte: o maior acionista individual é o empresário e político mexicano Roberto Alcántara Rojas, com 9,3%. O fundo de investimentos israelense Adar Capital vem em seguida, com 7,3%. Na sequência estão os bancos Santander (5,38%), CaixaBank (5,34%), a empresa Telefónica (5,29%) e banco estadunidense Morgan Stanley, com 4,7% das ações. Quem põe dinheiro em uma publicação, costuma controlar o que ela divulga ou deixa de divulgar.

LULA, ÍCONE DA LUTA CONTRA A FOME

O Comitê Nobel Norueguês, cujos membros são nomeados pelo Parlamento norueguês, tem a função de escolher, a cada ano, o laureado pelo prêmio, que é entregue pelo seu presidente. O Nobel da Paz tem critérios para que as pessoas possam votar nas indicações que são apresentadas. Uma consulta que não é decisória, mas tem influência. Para este ano, a votação terminou no dia 31/01.

O jornal francês, de esquerda, L’Humanité, por exemplo, trouxe na capa de sua edição do dia 29/01, uma foto do ex-presidente, com o título “Nobel da Paz para Lula”. A publicação fez uma resenha do que está acontecendo no Brasil, lembrando que Lula é um preso político e que seus governos foram responsáveis por ações que se tornaram ícones no mundo como a estratégia Fome Zero (que engloba 20 programas, entre eles o Bolsa Família).

O jornal assinalou que a candidatura de Lula tem a indicação do Prêmio Nobel da Paz argentino, Adolfo Pérez Esquivel, para quem a fome “é um flagelo e um crime dos quais são vítimas os povos submetidos à pobreza e à marginalização, privadas de vida e esperança por gerações”. Esquivel enfatiza que “Lula e seu governo se transformaram em um exemplo global da luta contra a pobreza e a desigualdade, contra a violência estrutural que nos aflige como humanidade”, o que o torna o grande merecedor do Nobel.

Não é fácil tentar desmontar esta argumentação. Mas Arias tentou.

Para o correspondente do diário espanhol, “o Brasil nunca ganhou o Nobel em nada. Na América Latina, a Argentina tem cinco, o México três, a Colômbia dois, a Guatemala dois, e a Venezuela e o Peru um cada”. Até aí, é verdade.

Mas, rapidamente, a argumentação de Arias começa a tropeçar.

Ao invés de citar nominalmente no artigo, o governo Bolsonaro e seus aliados como responsáveis pela tragédia política, econômica e social na qual o Brasil mergulhou depois do golpe travestido de impeachment contra Dilma Rousseff, ele prefere responsabilizar a política e os políticos em sua totalidade: “neste país em que a politica quer transformar as mãos das pessoas em armas para matar”.

Mais curioso, ainda, é que ao longo do artigo, em momento algum o nome da mineradora Vale (uma empresa de atuação global) aparece como a responsável pelo crime humano e ambiental que dizimou mais vidas do que muitas guerras. Crime que Arias insiste em denominar de “desastre”.

É no mínimo estranho que alguém defenda os bombeiros salvadores e não mencione os responsáveis pelo que aconteceu em Brumadinho e antes de Brumadinho, em Mariana.

Nos dois casos, com mortes, destruição de povoados e rios, a responsabilidade é da mineradora Vale, a ex-Companhia Vale do Rio Doce, privatizada a preço de banana pelo governo Fernando Henrique Cardoso.

A estranheza só diminui quando se verifica que a mineradora Vale é controlada por capitais israelenses e que tanto seu principal acionista quanto seu presidente são judeus. Curiosamente, 200 militares israelenses também desembarcaram em Minas Gerais para auxiliar na busca por corpos de vítimas. Deram um show de incapacidade e de inadequação de equipamentos e foram embora tão rápido quanto chegaram, deixando no ar a dúvida sobre o que realmente vieram fazer aqui.

Os capitais israelenses são também grandes acionistas do grupo Prisa.

LULA, O MANDELA DA ATUALIDADE

Mas Arias, ao contrário dos robôs (máquinas) e dos humanos midiotas que campeiam pelas redes sociais repetindo argumentos que não entendem, não faz segredo de qual é sua intenção.

Lá pelo meio do artigo a máscara cai: “se conceder ao Brasil o Nobel da Paz, não poderia ser neste momento a um político, mesmo que seja o popular Lula”.

Por que não poderia ser Lula? Por que um estadista respeitado em todo o mundo, sentenciado e preso, sem provas, o Mandela da atualidade pela importância de sua luta e pela truculência de seus carcereiros, não deveria receber esse prêmio?

Mas vamos continuar seguindo a pista do dinheiro.

O Santander é hoje o sexto maior banco em operação no Brasil, atrás apenas do Banco do Brasil, Itaú, Caixa Econômica Federal, Bradesco e BNDES. A operação do Santander aqui representa 30% do seu lucro global e, não por acaso, foram gerentes do Santander que, durante a campanha eleitoral de 2014, orientaram seus clientes a votarem contra a reeleição de Dilma Rousseff.

Lula e Dilma sempre foram críticos ao ganho sem limites dos bancos e, sobretudo Lula, se valeu, em seus dois governos, dos estabelecimentos públicos para viabilizar, a juros bem mais baixos, educação e habitação para os mais pobres. Basta lembrar o papel de banco social desempenhado pela CEF de 2004 a 2010, com a inclusão dos beneficiários dos programas sociais e do apoio do BNDES à indústria nacional, que possibilitou o ressurgimento da indústria naval.

Lula também não mediu esforços para fortalecer a Petrobras. O que viabilizou a descoberta do pré-sal e transformou a estatal brasileira em uma das maiores empresas de energia do mundo. Ações que desagradaram à banca internacional e nacional, ao mesmo tempo em que despertou a cobiça dos Estados Unidos e associados em relação ao petróleo brasileiro.

Já a empresa Telefónica entrou no Brasil por meio da farra das privatizações realizadas por Fernando Henrique Cardoso. O operador nesse processo foi ninguém menos do que um adversário de Lula e de sua política desenvolvimentista, o dono do banco Opportunity, Daniel Dantas.

O dono do Opportunity acabou servindo como uma espécie de organizador e intermediário no processo da privatização do sistema Telebras. A Polícia Federal, através da Operação Satiagraha, chegou a prendê-lo algumas vezes. Mas, em 2008, o STF, por 9 votos a 1, legitimou a decisão de seu presidente Gilmar Mendes, que mandou soltar Dantas por duas vezes em menos de 48 horas.

Uma das decisões de Mendes foi tomada de madrugada.

DANTAS, JERUSALÉM E ADAR

Daniel Dantas também tem muitos negócios na área de mineração. Os fundos geridos pelo Opportunity investem através da empresa Bemisa e do Projeto Pedra Branca. Entre os principais empreendimentos da Bemisa destacam-se a Mina Baratinha, que explora minério de ferro na região do Vale do Aço, em Minas Gerais.

O Caixabank, outro dos acionistas majoritários do grupo Prisa, que controla o El Pais, não tem negócios diretos no Brasil. Mas ele se tornou manchete nos principais jornais internacionais em 2018, quando passou a ser alvo de investigação pela justiça espanhola, “por abuso de mercado” pela compra do banco português BPI.

O fundo privado de investimentos Adar Capital, por sua vez, foi criado em 2011 e tem sede em Jerusalém, cidade para a qual o presidente Bolsonaro queria transferir a embaixada brasileira em Israel, passando por cima de decisões da ONU.

Quando presidente, Lula conseguiu o respeito tanto de Israel quanto dos palestinos. Já a relação da ex-presidente Dilma Rousseff com Israel azedou quando o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu enviou para o Brasil, como embaixador, Dani Dayan.

Amigo pessoal de Netanyahu, Dayan não teve suas credenciais aceitas, por ter atuado como líder do Conselho Yesha, dos colonos israelenses na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental, território que a legislação internacional destinou aos palestinos, mas que Israel continua ocupando.

Os governos Lula e Dilma eram favoráveis à solução de dois Estados – um para Israel, outro para palestinos -, que é impraticável sem a retirada dos colonos. Em 2016, todos os embaixadores brasileiros apoiaram a decisão de Dilma. Na sequência, Dayan foi nomeado cônsul-geral de Israel em Nova York.

POLÍTICA EDITORIAL E OPINIÃO PESSOAL

São esses grupos que, hoje, determinam a política editorial do El País. Mas, claro que muita gente não sabe disso. E claro, também que quando um articulista ou colunista se manifesta, como fez Arias, muitos pensam que aquela pode ser apenas uma opinião pessoal.

Pode. Mas dificilmente é. Especialmente para alguém que trabalha na empresa há 40 anos e conhece muito bem os ”humores da casa”.

Para a maioria dos seus leitores no Brasil, o El País ainda é visto como uma publicação de centro-esquerda, fundada em 1976, no período de transição da Espanha para a democracia, após o fim do franquismo.

Naquela época, o diário preencheu uma lacuna deixada pela mídia espanhola de então, desacreditada por suas ligações e apoio ao ditador Francisco Franco. Tanto que muitos o consideravam o “Jornal da Espanha da democracia”. E o El País realmente foi isso.

Durante várias décadas, primou por se pautar pelo alto padrão jornalístico e se tornou uma referência no mundo ao adotar, de forma pioneira, a figura do ombudsman (defensor dos interesses do leitor) em sua redação. O El Pais chegou a manter um centro internacional para a formação de jornalistas, comprometido com o melhor da técnica e da ética na profissão.

Nos governos de José Luis Rodríguez Zapatero (2004-2011), El País, tradicionalmente visto como um apoiador do PSOE, passou a publicar cada dia mais artigos críticos ou contrários às políticas em vigor. Isso fez com que perdesse leitores e espaço para outras publicações, entrando em crise. Foi quando a presença de novos acionistas se fez necessária.

Na Espanha da atualidade, esse diário é visto como uma publicação de direita, que além de oscilar, adota posições conservadoras quando o assunto é do interesse de seus acionistas, beirando o fascismo no que diz respeito ao movimento nacionalista do país basco ou da Catalunha.

A crise financeira que levou o Prisa a abrir seu capital, levou também a outros problemas, como desentendimentos e pressões entre antigos e novos acionistas pelo controle do grupo.

Claro que El País, como qualquer outro jornal ou jornalista, tem todo o direito de se posicionar da forma que julgar mais adequada em relação ao Prêmio Nobel da Paz. O que não se pode aceitar é que esse posicionamento apareça como apenas uma questão humanitária ou de mérito e não se apresente com sua face real.

Até porque os bombeiros anônimos que tem lutado sem tréguas para resgatar os corpos das vítimas de mais esse crime da Vale são os mesmos que estão com salários atrasados, sem 13º e prestes a terem sua aposentadoria indo para o espaço. São pessoas com problemas muito próximos aos terceirizados sem direitos, mortos pela lama tóxica da Vale. Um Brasil definitivamente muito diferente daquele dos anos Lula.

Daí a perplexidade final que Arias causa, quando sugere que o governo Bolsonaro “peça que o Nobel da Paz deste ano seja concedido aos bombeiros”. Logo o governo Bolsonaro, que é sinônimo de desrespeito, destruição e morte!

O Brasil de Bolsonaro é o oposto do criado por Lula: um Brasil que foi para todos e precisa voltar a ser de todos.

O Nobel da Paz para Lula significa a retomada da esperança.

*Angela Carrato
Professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais desde 1989. Doutora em Comunicação pela Faculdade de Comunicação da UnB, na linha de Políticas de Comunicação e Cultura, em 2013, com tese intitulada Uma História da TV Pública no Brasil. Mestrado em Comunicação pela UnB, em 1996; Pós-Graduada em Psicanálise pelo Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, em 2000.

Anúncios

Gleisi: Justiça Federal ofende religiosos e advogados do Brasil

Gleisi: Justiça Federal ofende religiosos e advogados do Brasil https://www.esmaelmorais.com.br/2019/01/gleisi-justica-federal-ofende-religiosos-e-advogados-do-brasil/

O Globo e a crise irreversível da mídia – Portal Vermelho

Os últimos dados de circulação dos jornais brasileiros, segundo estudos do site Poder360 com base nos dados do IVC (Instituto Verificador de Circulação), trazem informações relevantes.Por Luis Nassif, no Jornal GGN

Fonte: O Globo e a crise irreversível da mídia – Portal Vermelho

O Globo e a crise irreversível da mídia – Portal Vermelho

Os últimos dados de circulação dos jornais brasileiros, segundo estudos do site Poder360 com base nos dados do IVC (Instituto Verificador de Circulação), trazem informações relevantes. Por Luis Nassif, no Jornal GGN

Fonte: O Globo e a crise irreversível da mídia – Portal Vermelho

MST celebra 35 anos de luta e resistência – Portal Vermelho

Reunindo cerca de 400 militantes do Movimento, o ato político em homenagem aos 35 anos de existência do MST, contou com a presença de parlamentares, representantes de movimentos populares, professores universitários e amigos e amigas da organização.

Fonte: MST celebra 35 anos de luta e resistência – Portal Vermelho

Flávio Bolsonaro está na capa das revistas e não é por boniteza – Portal Vermelho

O simpático rosto de Flávio – filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro – estampa as edições de todas as quatro revistas semanais de informação do país neste final de semana. Veja, Época, IstoÉ e CartaCapital destacam as lambanças e suspeitas de crimes envolvendo o senador eleito do PSL e analisam os impactos do escândalo na incipiente era bolsonarista

Fonte: Flávio Bolsonaro está na capa das revistas e não é por boniteza – Portal Vermelho

POR QUE O PT E A ESQUERDA NÃO PODEM DAR TRÉGUA A BOLSONARO

Rogério Correia, Deputado Federal eleito por MG

As críticas que lemos e ouvimos na grande mídia contra a postura oposicionista do PT a Bolsonaro têm um significado: as grandes empresas de comunicação querem uma oposição “light” ao governo de extrema direita que se instalou no país. Não aceitam que o PT e a esquerda sigam numa política de crítica incansável a Bolsonaro e suas ações. “Permitem” apenas pequenas mudanças, algo como “puxões de orelha” no governo, mas nada além disso.

Não podemos esquecer: essas críticas vêm da mesma turma que apoiou o golpe que pôs Michel Temer no poder, depois apoiou a prisão sem provas de Lula (condenado por um tal “ato de ofício indeterminado”, um malabarismo jurídico criado para dar um verniz “jurídico” à total ausência de provas no processo do triplex) e, por fim, apoiou, ou foi indiferente, à eleição de um político medíocre de linha fascista para a presidência da república.

O Brasil piorou desde então. O desemprego aumentou. O rombo nas contas públicas, idem. A pobreza… A fome, que foi atacada pela primeira vez apenas nos governo Lula e Dilma, está voltando às nossas rotinas.

O PT está certo quando emite sinais de nenhuma trégua a um governo claramente antipopular, que não esconde a defesa de teses neoliberais na economia, oprime as minorias e incentiva ações contra a oposição (às vezes até com o uso da violência).

Se há, na história brasileira, ao menos na história republicana brasileira desde o início do século passado, se há um governo que não permite qualquer ilusão de defesa do povo, este governo é o “chefiado” por Bolsonaro. Disso não há dúvida: o discurso e a prática do extremista no poder são inequivocamente coerentes no desprezo a qualquer coisa que cheire a povo.

Defendo, inclusive, que o PT apresente ainda mais coesão nesse discurso e nessa prática de oposição, denunciando diariamente as mazelas do governo Bolsonaro. Em todos os campos, da crítica ao medievalismo bolsonarista nos costumes ao ataque aos direitos dos trabalhadores, passando pela denúncia do neoliberalismo privatista a toque de caixa e ao desprezo aos índios, negros, mulheres e LGBTs: frente a um péssimo governo não há descanso possível.

É preciso, assim sendo, organizar melhor e mais rapidamente os movimentos sociais, políticos e populares em geral, nos preparando para as batalhas que virão pela frente.

Não podemos emitir qualquer sinal de hesitação, sob pena de confundir politicamente o povo, aquele que, ao fim e ao cabo, será o grande prejudicado pelo desgoverno que ora se inicia. Hesitações nesse momento seriam a pior resposta, uma vez que, como já dito, Bolsonaro não as permite em sua prática cotidiana proto-fascista.

O chamado a um Congresso nacional do PT, visando a essa organização, é dessa forma premente. A direção do PT precisa chamar o quanto antes esse grande congresso, numa ação coerente com a ameaça que paira sobre o país e o povo brasileiro.

Nesse último aspecto, cabe elogiar a iniciativa da presidenta Gleisi Hoffmann, que compareceu à cerimônia de posse do presidente Maduro, na Venezuela. A gravidade da situação não nos permite resquício de ilusão: há uma ameaça real de conflito armado no país vizinho, sob patrocínio dos EUA, numa conflagração que pode chegar a uma guerra.

Os americanos querem fazer da Venezuela o que tentaram fazer na Síria – um “canal” geograficamente próximo do seu território, por onde escoariam as enormes reservas de petróleo. Como fizeram na Síria, no Egito e também no Brasil, os EUA não medem esforços no incentivo às oposições locais, ainda que isso provoque o caos interno nesses países (e foi o que verdadeiramente ocorreu na Síria, no Egito e no Brasil, a partir de meados desta década). A severidade desse quadro exige repostas políticas. Não bélicas.

Por isso meu aplauso à iniciativa da direção petista de apoio à posse de Maduro. O que menos precisamos, nessa quadra delicada em que nos encontramos, é de comprar brigas com países aliados, enfraquecendo as tão achacadas democracia e soberania latino-americanas. A alternativa a isso seria aceitar, sem luta, o aumento da hegemonia americana sobre a região.

Apoiar a ida à posse de Maduro, bem como o não comparecimento à posse de Bolsonaro, é fundamental para o PT e as esquerdas, no quadro atual em que se encontra o Brasil. É preciso abandonar qualquer ilusão quanto a Bolsonaro: impossível imaginar que algum dia ele demonstrará algum respeito pela democracia. E por uma razão trivial: ele não quer democracia, ele despreza a democracia, faz e fará o possível para mina-la.

Por isso também defendo a candidatura própria do bloco popular na eleição para a presidência da Câmara. Rodrigo Maia (DEM-RJ) já demonstrou afinação irrestrita com o programa bolsonarista. A aproximação entre ele o PSL de Bolsonaro apenas reforça isso. Precisamos de uma candidatura com mensagem oposta, e de forma ampla, preferencialmente abrigando todas as legendas progressistas que quiserem se juntar a essa corrente.

A França, isto é uma revolução?

Raquel Varela

Publicado originalmente em: https://www.google.com/amp/s/raquelcardeiravarela.wordpress.com/2018/12/07/a-franca-isto-e-uma-revolucao/amp/

Coisas magníficas estão acontecendo em toda França nestes dias. Extraordinárias. Polícias que retiraram capacetes e cantaram com os manifestantes a Marselhesa; bombeiros que numa homenagem em frente à prefeitura viraram as costas aos políticos vestidos com cores da França e abandonaram a homenagem; manifestantes de extrema-direita expulsos das manifestações pelos Coletes Amarelos; transporte público ocupado pelos manifestantes que impedem que se cobre passagem; há sindicatos da polícia que aderiram à manifestação e sindicatos ferroviários que decidiram não cobrar bilhete aos manifestante que se dirigem a Paris.
Greves e assembleias gerais de estudantes. As centrais sindicais pelegas pedem recuo nos protestos, mas representam menos de 7% dos trabalhadores franceses.
A França vive uma revolta – mas não é um movimento social como outros. É a primeira batalha perdida pelo neoliberalismo, depois da sua grande vitória na derrota dos mineiros nos anos 80 por Margaret Thatcher.
Um novo processo histórico nasceu este mês na França. Tudo pode acontecer – a história acelera agora a uma velocidade que nos parece estonteante.
Em 3 dias Macron recuou 2 vezes, não é certo que o seu mandato sobreviva. O movimento já está na Bélgica.

Vi com encolher de ombros a facilidade com que tantos aqui acreditaram que era a extrema-direita a dirigir aquele que já é o maior movimento europeu contra o neoliberalismo.

Mas alguém imagina que a extrema-direita tem alguma organização para dirigir milhões de pessoas nas ruas há 3 semanas?
Não, as pessoas acreditam porque querem acreditar.
Desta vez não é necessário um aguçado sentido critico, basta ler o Le Monde, o El País e ver a Euronews para perceber o susto na cara de Le Pen nos últimos dias, o pânico na face de Macron e a situação de crise no poder do Estado.
E, sobretudo, o esforço que Macron fez para que Le Pen apareça como responsável e líder de um movimento.
Ora, a esquerda aderiu ao Movimento formalmente, e há vários relatos da extrema-direita expulsa das manifestações.
Também há centrais sindicais amarelas – o que a meu ver é errado.

O fascismo não pode ter espaço algum, porque é inimigo das liberdades, o reformismo, por pior que seja, deve ter liberdade de manifestação.
A cólera do Movimento dirige-se contra as prefeituras, centenas foram atacadas e uma queimada. A crise dos partidos tradicionais é total, há separação entre representantes e representados de massas.

Macron lembrou-se finalmente que foi eleito com menos de 25% dos votos dos franceses?

A França está a viver uma situação inédita desde o Maio de 68.
São trabalhadores, professores e cientistas, aposentados e na ativa, ferroviários e estudantes, e os proletarizados em massa.
O centro da luta é a Diagonal do Vazio, área geográfica de pequenas e médias cidades que vai do nordeste ao sudoeste do país.
Nevers foi o epicentro. A alcunha Vazio vem do desemprego e do encerramento do pequeno comércio.
Nestas cidades os manifestantes – senhores e senhoras envergando o seu colete amarelo – explicam porque têm que usar o carro, e os idosos, para ir às compras a 10 km de distância, porque o grande comércio destruiu as mercearias – conta o El País;

O saque das pequenas lojas é mínimo, a maioria das lojas destruídas são as de alta costura e os grandes armazéns – diz o Le Monde. A revolta começou contra os impostos, estão “fartos” de pagarem para serem cada vez mais excluídos, do acesso à cidade também; outro conta que “não tolera viver num país onde o PM veste uma roupa de 45 mil euros, 3 salários anuais de um operário”; um engenheiro não sabe se “metade dos manifestantes concorda com a outra metade” mas não vai “sair da rua” até que as coisas mudem.
A pressão fiscal em França já é mais de 45%.
Querem emprego e não o rendimento mínimo.
Não são contra a imigração mas defendem que a solução está nos países de origem e que as políticas dos países ricos têm que mudar radicalmente.

Não gosto de violência. Nem de vandalismo ou destruição. Nunca mostrei simpatia pelos jovens desempregados ou sub empregados da periferia que vêm para a rua partir carros em França e Inglaterra.

Ao contrário da direita, acho que eles não nasceram vândalos, acho que são animalizados pela exclusão social que a direita promove.

Ao contrário de uma parte da esquerda organizada não acho que eles sejam uma esperança, nem uma forma de resistência – só vejo no vandalismo desespero e desistência. Sei também que a violência é mínima, a maioria dos bairros pobres tem gente que com esforço incrível vive de trabalho mal pago, e não desiste de viver. São os milhares de jovens que trabalham no comércio, construção civil, a vida deles não é partir, mas trabalhar por quase nada.
Tenho muitas dúvidas sobre se os “partidores” pertencem à classe trabalhadora, não sei se estão mais próximos do lumpen-proletariado. Misturar estes fenómenos, recorrentes na Europa, e minoritários, com o Movimento dos Coletes Amarelos é confundir uma torrada mista com um banquete em Versalhes.

Macron está a caminho de sair mal entrou, e não foi porque houve pancadaria no Arco do Triunfo, mas porque os coletes amarelos pararam a circulação de mercadorias há 3 semanas questionando a autoridade do Estado, que não os conseguiu impedir.
E viram costas às autoridades políticas locais. O Movimento conta com o apoio oficial de 60% dos franceses.

Sabem que mais? Estou feliz estes dias. Ando há anos ouvir falar da “aristocracia” operária europeia e da esperança na periferia do mundo, qualquer movimento camponês com 200 pessoas pessoas na Ásia é mais aplaudido pela esquerda do que uma greve de médicos na Alemanha, logo apelidados de “privilegiados”.
Por isso escrevi um livro de História da Europa, que lembrasse o passado de resistência na Europa, a importância dos sectores médios, a centralidade da produção de valor nos países centrais, a tradição de consciência de classe na Europa – superior a qualquer parte do mundo – os trabalhadores na Europa, sem os quais não haverá solução civilizada no mundo.
Passámos de um eurocentrismo para um periferocentrismo absurdo. Agora…sorte, sorte mesmo, porque tal precisão temporal não pode ser atribuída à previsão cientifica, é que o meu livro Um Povo na Revolução foi publicado em França justamente este mês.
Eles não fazem ideia, os coletes amarelos, como esse pedaço de coincidência irrelevante para a história da humanidade me divertiu. Vou ceder no meu gosto por roupa bonita e vestir o tal do Colete Amarelo.

Não olhem para o Arco do Triunfo em chamas, essas imagens de caos, mas para o triunfo da defesa organizada da cidade humanizada, do emprego com direitos, de um mundo justo, sem impérios e brutalidade social.
Os coletes amarelos são isso, quanto mais apoio tiverem de pessoas que acreditam na vida civilizada mais serão ainda parte da solução.

*Raquel Varela é historiadora e investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa.

Manuela aponta dados alarmantes de feminicídio e sugere mobilização – Portal Vermelho

Considerada uma das maiores lideranças feministas no Brasil, a deputada estadual Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) publicou em suas redes sociais dados alarmantes sobre casos de violência contra mulheres no começo do ano no Brasil. Citando reportagem do jornal O Globo, a deputada registrou que ‘em apenas 11 dias, 33 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil’. Ela também sugeriu que se faça uma mobilização ‘para mostrar que não vamos aceitar a total destruição dos parâmetros básicos da civilização e dos direitos humanos’.

Fonte: Manuela aponta dados alarmantes de feminicídio e sugere mobilização – Portal Vermelho

Os supersalários das Forças Armadas

Nossa reportagem levantou todos os salários de militares e encontrou centenas acima do teto, indenizações de mais de R$ 100 mil e valores milionários pagos no exterior

Fonte: Os supersalários das Forças Armadas