Brasileiro como eu, tu, ele, nós, vós e eles.

Brasileiro como eu, tu, ele, nós, vós e eles.

Sagres 2019.

Faz uma semana que um casal com uma criança chegaram na casa logo em frente de onde estou morando em Sagres. O que me chamou atenção foi as longas dreadlocks que o homem mantinha. Suas dreads iam até o tornozelo e com aparência de uma pessoa bem tranquila. Como costume por educação sempre o cumprimentava com um “Bom dia” e ele respondia em um português meio arrastado. Certo dia, quando conversava com seu filho, percebi que falam em alemão. Daí passei a cumprimenta lo em inglês.
Todas as manhãs a família acorda cedo, arrumavam as pranchas de surf sob o carro e partem felizes para mais um dia de lazer em família. Num desses dias, estava fotografando na Praia do Tonel, foi quando olhei na direção contrária, o vi caminhando em minha direção com um sorriso que me marcou muito. Percebi em seu olhar a felicidade que exibia no momento que me viu.
Aproximou e me estendeu a mão. Perguntei de onde ele era. Para minha surpresa ele respondeu “ I am brazilian”. Comecei a falar em português e sem entender ele não respondeu e continuou caminhando em direção ao mar com sua prancha e focado nas ondas.
A tardinha quando chegava em casa o vi na varanda de sua casa e me aproximei. Ele com um sorriso cativante me convidou para entrar e começamos a nossa resenha em inglês. Perguntei o seu nome, respondeu Roberto. Daí não contive minha curiosidade e perguntei o porque não falava português. Quando disse que sou brasileiro seus olhos encheram de lágrimas e fiquei sem entender o porque de tudo isso.
Papo vai papo vem, ele contou ter sido adotado por uma família alemã na década de 80. Chegou em Hamburgo na Alemanha com 3 anos de idade. Fiquei chocado com as coisas que me dizia, parece que ele precisava desabafar um pouco de sua história. Contou que há 2 anos esteve no Brasil procurando pelo seus pais e nunca os encontrou. Perguntei seu sobrenome e ele respondeu que chegou na Alemanha com nome de Roberto e sem sobrenome. Enquanto esteve no Brasil encontrou com a traficante que o vendeu por 1300 dólares e descobriu nada sobre seus pais biológicos. A mulher que o traficou ainda vive em Florianópolis e supostamente seus pais vivem em São Paulo, mas nunca os encontrou. Narrou que na década de 80, 30 mil crianças foram traficadas para várias parte do mundo sobre a batuta autoritária do regime militar.
Nas minhas andanças pelo mundão, sempre me emociono com as histórias que contextualizo, certamente essa vai ficar para sempre na memória. Uma coisa estou mais certo que nunca: Ganhei um irmão e com certeza iremos estar ligados para sempre.
Ele constrói sua história sem certezas sobre suas raízes, nem ele mesmo sabe quando e onde nasceu, sua identidade foi construída pelo tempo de suposições de uma vida sem um começo, mas com capacidade de se auto construir.
Na primeira oportunidade vou passar um tempo em Hamburgo com esse brasileiro em especial que me cativou pelo simples fato de temos os mesmo destinos nessa passagem pela vida e por temos o mesmo sorriso estampado em nossas caras com tantas felicidades !!!

Ricardo Bastos.

É professor de fotografia e jornalista.

#rawbird
Sagres Portugal 2019
PHOTO/TEXT BY RB
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