A França, isto é uma revolução?

Raquel Varela

Publicado originalmente em: https://www.google.com/amp/s/raquelcardeiravarela.wordpress.com/2018/12/07/a-franca-isto-e-uma-revolucao/amp/

Coisas magníficas estão acontecendo em toda França nestes dias. Extraordinárias. Polícias que retiraram capacetes e cantaram com os manifestantes a Marselhesa; bombeiros que numa homenagem em frente à prefeitura viraram as costas aos políticos vestidos com cores da França e abandonaram a homenagem; manifestantes de extrema-direita expulsos das manifestações pelos Coletes Amarelos; transporte público ocupado pelos manifestantes que impedem que se cobre passagem; há sindicatos da polícia que aderiram à manifestação e sindicatos ferroviários que decidiram não cobrar bilhete aos manifestante que se dirigem a Paris.
Greves e assembleias gerais de estudantes. As centrais sindicais pelegas pedem recuo nos protestos, mas representam menos de 7% dos trabalhadores franceses.
A França vive uma revolta – mas não é um movimento social como outros. É a primeira batalha perdida pelo neoliberalismo, depois da sua grande vitória na derrota dos mineiros nos anos 80 por Margaret Thatcher.
Um novo processo histórico nasceu este mês na França. Tudo pode acontecer – a história acelera agora a uma velocidade que nos parece estonteante.
Em 3 dias Macron recuou 2 vezes, não é certo que o seu mandato sobreviva. O movimento já está na Bélgica.

Vi com encolher de ombros a facilidade com que tantos aqui acreditaram que era a extrema-direita a dirigir aquele que já é o maior movimento europeu contra o neoliberalismo.

Mas alguém imagina que a extrema-direita tem alguma organização para dirigir milhões de pessoas nas ruas há 3 semanas?
Não, as pessoas acreditam porque querem acreditar.
Desta vez não é necessário um aguçado sentido critico, basta ler o Le Monde, o El País e ver a Euronews para perceber o susto na cara de Le Pen nos últimos dias, o pânico na face de Macron e a situação de crise no poder do Estado.
E, sobretudo, o esforço que Macron fez para que Le Pen apareça como responsável e líder de um movimento.
Ora, a esquerda aderiu ao Movimento formalmente, e há vários relatos da extrema-direita expulsa das manifestações.
Também há centrais sindicais amarelas – o que a meu ver é errado.

O fascismo não pode ter espaço algum, porque é inimigo das liberdades, o reformismo, por pior que seja, deve ter liberdade de manifestação.
A cólera do Movimento dirige-se contra as prefeituras, centenas foram atacadas e uma queimada. A crise dos partidos tradicionais é total, há separação entre representantes e representados de massas.

Macron lembrou-se finalmente que foi eleito com menos de 25% dos votos dos franceses?

A França está a viver uma situação inédita desde o Maio de 68.
São trabalhadores, professores e cientistas, aposentados e na ativa, ferroviários e estudantes, e os proletarizados em massa.
O centro da luta é a Diagonal do Vazio, área geográfica de pequenas e médias cidades que vai do nordeste ao sudoeste do país.
Nevers foi o epicentro. A alcunha Vazio vem do desemprego e do encerramento do pequeno comércio.
Nestas cidades os manifestantes – senhores e senhoras envergando o seu colete amarelo – explicam porque têm que usar o carro, e os idosos, para ir às compras a 10 km de distância, porque o grande comércio destruiu as mercearias – conta o El País;

O saque das pequenas lojas é mínimo, a maioria das lojas destruídas são as de alta costura e os grandes armazéns – diz o Le Monde. A revolta começou contra os impostos, estão “fartos” de pagarem para serem cada vez mais excluídos, do acesso à cidade também; outro conta que “não tolera viver num país onde o PM veste uma roupa de 45 mil euros, 3 salários anuais de um operário”; um engenheiro não sabe se “metade dos manifestantes concorda com a outra metade” mas não vai “sair da rua” até que as coisas mudem.
A pressão fiscal em França já é mais de 45%.
Querem emprego e não o rendimento mínimo.
Não são contra a imigração mas defendem que a solução está nos países de origem e que as políticas dos países ricos têm que mudar radicalmente.

Não gosto de violência. Nem de vandalismo ou destruição. Nunca mostrei simpatia pelos jovens desempregados ou sub empregados da periferia que vêm para a rua partir carros em França e Inglaterra.

Ao contrário da direita, acho que eles não nasceram vândalos, acho que são animalizados pela exclusão social que a direita promove.

Ao contrário de uma parte da esquerda organizada não acho que eles sejam uma esperança, nem uma forma de resistência – só vejo no vandalismo desespero e desistência. Sei também que a violência é mínima, a maioria dos bairros pobres tem gente que com esforço incrível vive de trabalho mal pago, e não desiste de viver. São os milhares de jovens que trabalham no comércio, construção civil, a vida deles não é partir, mas trabalhar por quase nada.
Tenho muitas dúvidas sobre se os “partidores” pertencem à classe trabalhadora, não sei se estão mais próximos do lumpen-proletariado. Misturar estes fenómenos, recorrentes na Europa, e minoritários, com o Movimento dos Coletes Amarelos é confundir uma torrada mista com um banquete em Versalhes.

Macron está a caminho de sair mal entrou, e não foi porque houve pancadaria no Arco do Triunfo, mas porque os coletes amarelos pararam a circulação de mercadorias há 3 semanas questionando a autoridade do Estado, que não os conseguiu impedir.
E viram costas às autoridades políticas locais. O Movimento conta com o apoio oficial de 60% dos franceses.

Sabem que mais? Estou feliz estes dias. Ando há anos ouvir falar da “aristocracia” operária europeia e da esperança na periferia do mundo, qualquer movimento camponês com 200 pessoas pessoas na Ásia é mais aplaudido pela esquerda do que uma greve de médicos na Alemanha, logo apelidados de “privilegiados”.
Por isso escrevi um livro de História da Europa, que lembrasse o passado de resistência na Europa, a importância dos sectores médios, a centralidade da produção de valor nos países centrais, a tradição de consciência de classe na Europa – superior a qualquer parte do mundo – os trabalhadores na Europa, sem os quais não haverá solução civilizada no mundo.
Passámos de um eurocentrismo para um periferocentrismo absurdo. Agora…sorte, sorte mesmo, porque tal precisão temporal não pode ser atribuída à previsão cientifica, é que o meu livro Um Povo na Revolução foi publicado em França justamente este mês.
Eles não fazem ideia, os coletes amarelos, como esse pedaço de coincidência irrelevante para a história da humanidade me divertiu. Vou ceder no meu gosto por roupa bonita e vestir o tal do Colete Amarelo.

Não olhem para o Arco do Triunfo em chamas, essas imagens de caos, mas para o triunfo da defesa organizada da cidade humanizada, do emprego com direitos, de um mundo justo, sem impérios e brutalidade social.
Os coletes amarelos são isso, quanto mais apoio tiverem de pessoas que acreditam na vida civilizada mais serão ainda parte da solução.

*Raquel Varela é historiadora e investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa.

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